Tem gente que ama, que vive brigando E depois que briga acaba voltando Tem gente que canta porque está amando Quem não tem amor leva a vida esperando Uns amam pra frente, e nunca se esquecem Mas são tão pouquinhos que nem aparecem Tem uns que são fracos, que dão pra beber Outros fazem samba e adoram sofrer Tem apaixonado que faz serenata Tem amor de raça e amor vira-lata Amor com champagne, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça Tem homem que briga pela bem-amada Tem mulher maluca que atura porrada
Tem quem ama tanto que até enlouquece Tem quem dê a vida por quem não merece Amores à vista, amores à prazo
Amor ciumento que só cria caso Tem gente que jura que não volta mais Mas jura sabendo que não é capaz Tem gente que escreve até poesia E rima saudade com hipocrisia
Tem assunto à bessa pra gente falar mas nao interessam o negócio é amar
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera ! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armouanatureza,o desarmaotempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lheas setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-seo ferro com o uso, quanto maiso amor ?!Omesmoamar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos.
(VIEIRA, Antônio. Apud: PROENÇA FILHO, Domício.Português.Rio de Janeiro:Liceu, 1972. V5. p.43) Escrito por Cássio Rodrigues às 15h15
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OS TUMULTOS DA PAZ
O amor ao próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para enganar crianças, desavisados e inquilinos de sacristia. Trata-se de umaessencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos poremos a serviço, nem de nós mesmos, nem de ninguém. Amar ao Próximo como asi mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais íntimo Próximo de mim, e esta relaçãodemimpara comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passoa construir a minha auto-estima.
Eis aí o modelo da paz.
(PELLEGRINO, Hélio. A burrice do demônio. Rio de Janeiro: